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Aristóteles, Esg, Transparência e Mentiras

Aristóteles e a importância da verdade em ESG. Transparência é pilar da governança. Mentiras e greenwashing corroem a confiança e destroem reputações. A ética deve guiar todas as comunicações.

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Por
Ricardo Voltolini
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15.06.2026
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10 min
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Li Ética a Nicômano, de Aristóteles. Inteiro. Isso não faz de mim melhor do que ninguém. Nem alguém obsecado por erudição. Apenas revela uma alma aflita, apertada como pé 43 em sapato 38, em busca de respostas para questões éticas. Nessa obra-prima dedicada ao filho, o filósofo grego alega que a virtude moral é resultado de hábito. Tornamo-nos o que fazemos repetidas vezes. Ficamos mais virtuosos se praticamos atos de virtude (virtude, para os gregos, era fazer bem feito, na justa medida.) Uma das origens da palavra ética é hábito. ​

Esqueça, por hora, os argumentos técnicos. Pense em ESG apenas como um campo de ponderações éticas. Sim, há dilemas éticos nos seus fundamentos: hoje já se sabe que o certo a se fazer, em benefício das próximas gerações, é reduzir impactos ambientais, preservar recursos naturais, incluir pessoas e comunidades, respeitar direitos humanos na cadeia de valor e ser transparente nas relações.

Transparência é um conceito central no G do ESG, mas também uma ideia-força que permeia os demais temas de E e de S. Não existe transparência sem verdade. Nem verdade sem ética. Logo, não existe ESG sem ética. A não ser que eliminemos as suas questões filosóficas essenciais e tratemos dele apenas sob a perspectiva de marketing ou como um check list de tecnicidades para atender as súplicas dos beatos de frameworks e ratings do mercado financeiro.

Recorro a Aristóteles para aplacar o meu sentimento de perplexidade com o aumento, no último mês, de notícias sobre mentiras praticadas sem constrangimento por empresas brasileiras: do hamburger de picanha sem picanha e dos relatórios de emissões de GEEs maquiados à criação de perfis falsos em redes para combater reinvindicações sociais de colaboradores—justamente o elo economicamente (S do ESG) mais frágil de sua cadeia de valor. ESG, na essência, é transparência, verdade e ética. A musculatura ética, como pregou Aristóteles, só melhora com exercício prático, não discurso.

ESG, SANTO AGOSTINHO E EXERCÍCIO FÍSICO

Se o homem soubesse as vantagens de ser bom, faria o bem por egoísmo. A frase é de Santo Agostinho (354-430 DC), bispo argelino, teólogo e filósofo cristão. E está em seu livro Confissões. Há pouco tempo, usei-a para responder à pergunta de uma jovem executiva sobre a mais eficaz motivação para uma empresa iniciar jornada em ESG: convicção, conveniência ou constrangimento?​ Pense em exercício físico, disse. Pode-se começar a praticar por convicção (o melhor a fazer por sua saúde), conveniência (para ficar com o corpo ideal da média do seu grupo de referência) ou por constrangimento (por que o médico deu um ultimato.) Malhar exige disciplina, tempo, investimento, renúncias. ESG também. É mais provável que se torne um hábito se for por convicção. Afinal, convicção é uma pulsão de dentro para fora, não depende de agradar ao outro nem está ligada a nenhum tipo de pressão. Nas empresas que fazem por convicção (crença, valores, cultura), observo maior engajamento pessoal da alta direção. E também maior inserção dos temas ESG na estratégia de negócios. São mais cuidadosas com o walk the talk, desenham melhor os seus planos de ação, envolvem todos os públicos de interesse e cumprem mais rigorosamente as metas estabelecidas. As que aderem por conveniência e/ou constrangimento são naturalmente reativas, procrastinam decisões, evoluem aos trancos e fazem o mínimo para cumprirem algum protocolo ou se ajustarem à demanda pontual de um cliente. Parecem o aluno que decora o tema sem compreendê-lo, apenas para “passar na prova.” Seus compromissos têm o exato tamanho de suas ambições. Retorno à sábia frase de Santo Agostinho, com pequenas adaptações: “Se as empresas soubessem as vantagens de ser ESG, fariam o que precisa ser feito por convicção.”