Insight

Diplomacia Nacional, Belém e Amazônia Saíram Vencedoras

A COP30 fortaleceu a diplomacia brasileira, Belém e a Amazônia. Marina Silva, Ana Toni e André Corrêa do Lago foram elogiados globalmente. Belém mostrou acolhimento e a Amazônia ganhou visibilidade como ativo estratégico planetário.

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Por
Ricardo Voltolini
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15.05.2026
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10 min
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Os negociadores brasileiros, a cidade de Belém e a Amazônia saem muito mais fortes da COP30. Nos muitos encontros proporcionados pelo evento, ouvi de vários colegas estrangeiros rasgados elogios sobre a “sabedoria ancestral” da ministra do Meio Ambiente Marina Silva, sobre a competência da diretora-executiva Ana Toni e, claro, sobre a empatia do presidente André Corrêa do Lago.

Imagem de Lago segurando em seu colo um bebê da etnia munduruku, durante um protesto do seu povo, espalhou-se pelo mundo, mostrando respeito, acolhimento e afeto genuínos que todos esperamos de líderes públicos e ou privados. Marina, Ana e André são líderes admirados em todo o mundo. E nem poderia ser diferente. “Se cada país tivesse um trio como este, talvez nos encontrássemos mais fortes no enfrentamento das mudanças do clima”, disse-me o líder de uma importante organização norte-americana.

Colocada sob dúvidas em sua capacidade de receber o evento, muitas vezes avacalhada pelos próprios brasileiros do Sul-Sudeste, Belém deu uma aula de acolhimento. Dessas que fica difícil de esquecer. Saiu muito maior do que entrou na COP30. Colorida, vibrante, calorosa, festiva sem precisar fazer esforço e com uma cultura rica que se impregna nos cinco sentidos de quem a conhece, a cidade admitiu os visitantes como quem recebe em casa parentes queridos. E além de leitos, ofereceu a eles rios e florestas, folclore e misticismo, música, dança, artes plásticas e gastronomia únicos.

Muito calor? Sim, muito. Mensagem óbvia num evento que discute calor. Belém foi a cidade brasileira com mais dias muito quentes ao longo de um ano-- quadro que deve piorar com o previsível aumento de temperatura média do planeta. Comida cara? Não mais do que nos aeroportos brasileiros. Hotéis a preço de resort seis estrelas? Tanto quanto em outras COPs por onde andei. Fogo e insegurança? Teve e foi apagado em cinco minutos sem maiores consequências para os participantes. Críticas internacionais? Só a do chanceler alemão, a mesma crítica xenofóbica de sempre, que foi contestada pelo presidente alemão e pela delegação desse país em Belém.

Ouvi de um jornalista renomado que Belém “deu a volta por cima” com a COP30. Premissa ingênua e equivocada. Só dá a volta por cima quem já esteve em baixa. E Belém só esteve em baixa na visão dos que não conseguem enxergar o mundo sem uma lente de preconceito regional.

Depois de Belém, só quem se beneficiou mais com a alta-exposição da COP30 foi a Amazônia. Mais do que uma mancha verde abstrata intocável no mapa mundi, um templo ambiental idílico, a Amazônia passou a ser vista como um grande ativo estratégico para o planeta. Em pé e preservada, pode garantir a umidade necessária para a vida na terra. Utilizada de modo responsável, pode gerar uma bioeconomia rica com impacto positivo sobre a renda e a qualidade de vida das populações que vivem dos seus recursos. Era uma ideia que racionalmente eu cultuava. Em Belém, aprendi a senti-la no coração.

O QUE APRENDI SOBRE

LIDERANÇA SUSTENTÁVEL

COM JACOB COLLIER

A música como um laboratório de competências interiores e valores importantes para quem quer liderar no século 21.

Até mesmo os compêndios de tendências que entopem nossos feeds reconhecem a importância do assunto que quero tratar neste primeiro artigo do ano: o mundo precisa de liderança sustentável, inclusiva e orientada por valores. No mínimo, como fator de proteção da esperança em dias melhores.

Apesar de obviamente relevante, este é um daqueles “temas de gestão” vistos como moda acessória aos quais nunca se confere o devido valor. Para abordá-lo, escolhi um personagem inusitado: Jacob Collier.

Nem perca o seu tempo tentando lembrar se já viu este nome em alguma lista estrelada de CEOs. Collier é um músico, de 31 anos, mais relevante do que badalado, exatamente como o tema deste artigo.

Collier esteve no Brasil, em 2025, entre as atrações do The Town. E aqui fez sucesso como de costume. Até assistir ao vídeo que acompanha este artigo—confesso—sabia pouco de sua existência. Agradeço ao algoritmo do Youtube pelo impacto da descoberta.

Nascido em Londres, começou sua carreira ainda adolescente, usando as redes para viralizar arranjos multi-instrumentais de canções populares nos EUA. Seu enorme talento, quase mediúnico, não demorou a ser notado. Quincy Jones (1933-2024), o mais importante produtor musical norte-americano, rendeu-se ao “Mozart millennial” e o convidou a integrar o seu seletíssimo elenco de artistas. Ascensão instantânea.

Em pouco mais de uma década, Collier deixou o pequeno quarto onde produzia vídeos caseiros para ganhar o mundo, colecionando álbuns elogiados, prêmios Grammy, amigos influentes e milhões de seguidores. No Youtube são mais de dois milhões. Quem já assistiu ao vivo a um dos seus “concertos” ou “masterclasses” garante que é uma experiência mágica, quase transcendental.

Há uma pequena mostra no vídeo em anexo. Nela, Collier improvisa uma curiosa interação com os instrumentistas e a audiência da orquestra sinfônica de San Francisco (EUA). Desse laboratório nada trivial aflora uma espécie de comunhão de energias que só artistas supercraques são capazes de evocar: um concerto convencional se transforma então em ode à música como elemento de congraçamento, resultando numa celebração magnética cujo resultado final é o envolvimento, o bem-estar e a felicidade de todos os participantes.

Parece bom demais para ser verdade. Mas é melhor ainda, quando analisado sob a perspectiva de uma lente menos óbvia que a da análise de um espetáculo musical. Que Collier compõe, canta, toca e arranja como poucos profissionais de sua geração nem mesmo um leigo terá coragem de discordar. O que realmente chama a atenção—e este foi o meu insight- é que o músico reúne as melhores competências internas de uma liderança humanizada.

Vamos a elas. Para explicar o meu ponto de vista, recorro ao framework dos Inner Development Goals (IDGs), que classifica as competências internas em cinco dimensões: Ser (relação consigo), Pensar (habilidades cognitivas), Relacionar (importar-se com o outro e o mundo), Colaborar (habilidades sociais) e Agir (liderar mudanças.)

Para os Objetivos de Desenvolvimento Interno, o enfrentamento dos atuais desafios globais exige a formação de indivíduos mais conscientes. E uma mudança nas crenças, valores e capacidades humanas essenciais.

Ser: bússola interna, abertura, integridade e presença Comecemos pela primeira. Collier incorpora fortemente as qualidades distintivas da dimensão do Ser. É alguém que carrega uma bússola interna muito afinada, isto é, uma forte conexão com propósito.

A música não é, para ele, apenas trabalho. Mas uma causa, um norte pessoal. Um jeito autêntico de tocar a alma humana, de distribuir bem-estar. É algo que lhe permite agir com integridade no mundo, alinhando vocação inequívoca com um senso de missão que excede a esfera individual para gerar valor ao coletivo. “A música é necessária porque é um dos poucos lugares onde se pode se expressar em massa, com liberdade”, diz o músico.

Outra qualidade notável em Collier é a da presença. Aqui, socorro-me no conceito de presença proposto por Otto Scharmer, o formulador da Teoria U: a habilidade de se conectar com a fonte mais profunda do seu “eu” e com a possibilidade de gerar impacto positivo, o que exige mente, coração e vontade “abertas” (openness.)

Impressiona, por exemplo, o estado de plena atenção com que Collier escuta as mínimas notas, valoriza os músicos e destaca o poder de cada contribuição sonora, por menor que seja, como se fosse única. Comove ainda o modo intenso, ao mesmo tempo simples e divertido, com que ele rege milhares de vozes como se fossem um instrumento musical vivo. Sem abrir mão da leveza. Sem perder o espírito de aprendiz.

Pensamento crítico, consciência de complexidade e olhar de perspectiva

Recorra ao vídeo e confirme: a dimensão do Pensar é, seguramente, uma das mais vistosas no músico britânico. Ou pelo menos a mais impactante. Ela salta aos olhos à medida em que começa, no improviso, a convocar os músicos, por séries de instrumentos, a tocar as notas como peças de um quebra-cabeças que, na sequência, ele vai montar na forma de arranjo para as músicas populares que executará ao piano. Surpreendente.

Não é preciso ser especialista para compreender: uma tarefa com tal complexidade, tornada magicamente simples, exige ouvido absoluto, domínio técnico perfeito e criatividade pulsante. Mas também uma consciência sistêmica. Uma capacidade de converter pedaços de informação musical em sentimentos completos. “Técnica é importante. Mas música é conexão e comunidade. O que emociona mesmo são as imperfeições. Não existem notas erradas. Gosto de explorar esse espaço de humanidade sem abrir mão do rigor”, explica.

Relacionar-se requer apreciação, conexão, humildade, empatia e compaixão Uma frase resume a terceira dimensão de competência interna, a do se Relacionar: relacionar-se é se importar. E se importar é trazer para dentro de si uma genuína preocupação com o outro e o mundo.

Para exercer plenamente essa condição, o indivíduo precisa de quatro habilidades raras, que faltam nos líderes convencionais e sobram em Collier. Distingue uma liderança sustentável exatamente a sua capacidade de reconhecer o valor dos outros e a riqueza de suas diferenças (apreciação), de fortalecer a noção de interdependência (conexão), de agir com modéstia suprimindo o ego em nome do “eco” (humildade) e de se colocar no lugar do outro, exaltando as emoções (empatia e compaixão) que o tornam humano.

O mundo corporativo seria, sem dúvida, melhor se houvesse menos líderes tóxicos e mais líderes que se importam: apreciativos, conectivos, humildes e empáticos.

Mentalidade inclusiva, confiança e cocriação

Colaborar, não por acaso, é hoje uma das mais desejadas soft skills no mundo corporativo. Collier é uma espécie de mestre faixa preta nessa quarta dimensão das competências internas. Senão, vejamos: convido você a observar o jeito empático como ele se comunica e mobiliza músicos e plateia, ouvindo com sensibilidade aguda, incluindo as diversas perspectivas e estabelecendo convergência de propósito.

A regência do coro coletivo, feita com sinais simples, notas cantadas e harmonias compostas, nada mais é do que uma magnífica obra de cocriação. Honesta e profunda. Ela só existe “no”, “com” e “para” o outro. Só acontece porque o “líder”, ao exaltar o interesse coletivo da “obra”, consegue criar um território encantado de confiança do qual emergem, com alto grau de afinação, inovação e colaboração genuínas.

Note o sorriso de satisfação dos músicos. Observe os rostos inebriados de uma plateia claramente comovida com a experiência. Quantos grupos de pessoas adorariam ter líderes deste tipo. “Sou obcecado por harmonia. É ela, e não as notas, que determina os sentimentos e influencia a experiência do público. Cada nota é um acorde maior. É a lei da natureza”, conta.

Agir com criatividade, coragem e otimismo

Quinta e última dimensão dos IDGs, o Agir representa a conversão de boas intenções em bons projetos e iniciativas. Faz a ponte entre as competências internas e o impacto externo necessário. Dos atributos que a definem, três se destacam em Collier, sendo o primeiro o mais óbvio: criatividade, coragem e otimismo. É preciso coragem, sim, para, não sendo maestro, lidar com o imponderável da regência sem plano e ensaio de um grupo de músicos profissionais e de um coro polifônico de leigos afinados. É preciso uma visão de mundo propositiva para convencer tanta gente, em tão pouco tempo, da grandeza humana de uma tarefa aparentemente inocente. Muitos líderes convencionais não conseguem extrair o mínimo de engajamento de seus grupos.

“A música é feita de vida. Tudo o que torna a vida possível alimenta a música”, filosofa Collier. Restituir a vida no trabalho, que se perdeu com a desumanização das relações, deveria ser papel de uma liderança mais sustentável—cabe refletir.

A esta altura do artigo, não duvido que alguém esteja fazendo comparações: reger uma orquestra de 100 músicos sem partitura ou um coro de 50 mil pessoas usando meneios e sugestões de notas é fácil. Difícil é liderar uma empresa, um governo ou uma organização sem fins de lucro. Será?

Difícil mesmo é liderar as mudanças necessárias sem uma integração equilibrada de ser-pensar-relacionar-colaborar-agir. A saída é para dentro. Como uma harmonia complexa e colorida que gera vida, como diria Collier.