A pauta de diversidade, equidade e inclusão enfrenta resistência de visões machistas e moralistas. Estudos comprovam que ambientes diversos são mais criativos, inovadores e lucrativos. D&I gera valor real para os negócios.

Ao pedir que Deus o livrasse de uma mulher CEO, em resposta a um seguidor de Instagram, um jovem executivo do setor de educação corporativa não imaginou que estivesse abrindo a porta do seu inferno astral.
Em sua antiquada visão machista, salvo raras exceções, as mulheres se masculinizam quando se tornam CEOs, deixando de lado filhos, marido e lar. Ser CEO, segundo sua perspectiva sexista, representa desperdício de energia feminina.
O executivo experimentou na pele, só que às avessas, os efeitos rápidos da popularidade que o tem ajudado a vender cursos nas redes sociais. Sua declaração caiu como uma bomba. Em questão de horas, mobilizou a revolta de milhares de mulheres, inclusive célebres CEOs dedicadas à causa de promoção de gênero, tornando-se por iniciativa própria o judas da semana.
Como era de se esperar, não aguentou o tranco. Deixou o posto de CEO da empresa que fundou (agora simbolicamente ocupado por uma mulher), logo depois de ser convidado a sair do conselho de uma empresa de lingerie. Como é dono do dinheiro, imagino que retorne em breve, após um providencial “período sabático para reflexões.”
Este executivo não é exatamente uma exceção. O que o distingue dos muitos similares com quem já cruzei nos últimos anos é o discurso “sincericida”, sem filtros, alimentado talvez por um certo gosto por polêmica ou mesmo arrogância, ego fora de controle e excesso de energia masculina.
Arrisco afirmar que a pauta da diversidade, equidade e inclusão, em alta com a ascensão do ESG, só não avança mais nas empresas porque pessoas como ele insistem em confrontá-la com visões moralistas, crenças limitantes, e mais recentemente, posições ideológicas.
Explico melhor. Centenas de estudos em todo mundo apontam uma clara correlação entre ambientes diversos/inclusivos e empresas mais saudáveis, mais criativas e inovadoras e, portanto, mais lucrativas.
Segundo o Instituto Identidades do Brasil (2019), um acréscimo de 10% na diversidade de gênero aumenta em até 5% a produtividade. Pesquisa feita pela McKinsey (2020) mostra que entre empresas com maior diversidade de gênero, 55% entregaram melhores resultados operacionais contra 29% no caso das empresas não diversas.
Outro estudo da Grant Thornton, Women in Business, indica que, na contramão dos movimentos de D&I, o número de mulheres em cargos de CEO caiu globalmente de 28% (2023) para 19% (2024.)
Menos mulheres CEOs significa que elas são menos capazes para ocupar os cargos mais altos de empresas? Óbvio que não. Significa que elas ainda são vítimas dos vieses inconscientes de um mundo corporativo muito masculino, machista e misógino, mas também branco, de olhos claros, hetero e magro.
Vieses inconscientes nada mais são do que pré-julgamentos de ideias, pessoas e grupos baseados em estereótipos formados ao longo de uma vida e escondidos num compartimento recôndito de nossa mente.
Apenas eles explicam porque, ainda hoje, apesar do reconhecimento da diversidade como valor de negócio, muitos gestores seguem empregando pessoas que pensam ou agem como eles—o próprio executivo em questão (tomado pelo viés de afinidade) admitiu, em comunicações anteriores, não contratar “esquerdistas” e optar pelos que trabalham “80 horas por semana.” Bons para ele são os workaholics e reacionários.
Apenas os vieses inconscientes explicam também porque, a despeito da pressão dos milennialls por empresas mais diversas, gestores ainda preferem recrutar indivíduos identificados com o mesmo padrão físico e estético (viés de aparência). E no outro extremo, deixam de selecionar pessoas negras, com deficiência ou mulheres jovens por acharem que não têm estofo compatível com as pressões corporativas (viés de estereótipo), que exigem muito esforço de adaptação (viés de confirmação) ou que querem engravidar e ter filhos (viés de maternidade.)
Uma boa notícia sobre os vieses inconscientes é que podem e devem enfrentados e superados. Hoje e sempre. Afinal, somos seres em evolução.
O executivo malhado na semana passada pareceu, a princípio, ter reconhecido as bobagens preconceituosas que falou. Mas quanto desse mea culpa ocorreu apenas por causa da repercussão pública negativa?
Tenho participado de conversas privadas nas quais alguns líderes destilam, sem censura, opiniões duras contra o que chamam de “mimimi” dos movimentos feministas, antirracistas, anticapacitistas e LGBTQIA+.
Recentemente, grandes empresas globais anunciaram um “freio de arrumação” nos programas de D&I. Receio que um assunto de grande interesse público esteja começando a chamuscar no meio de um fogo cruzado ideológico, moralista e discriminatório.
Se toda dor tem algo a ensinar, a tragédia ambiental ocorrida no estado do Rio Grande do Sul em 2024 carrega duas lições. Negar ou minimizar a relação de causalidade com as mudanças climáticas, resultado do desmatamento e das emissões humanas de gases de efeito estufa, não só não ajuda a enfrentar o problema como nos torna ainda mais vulneráveis aos seus efeitos.
Tão importante quanto mitigar os agentes de desequilíbrio do clima é adaptar-se às suas duras consequências- a resiliência climática, até um mês atrás desconhecida do grande público, passou a representar um novo desafio para a humanidade no século 21.
Na cobertura jornalística da catástrofe gaúcha, o aquecimento global apareceu com todas as letras no discurso de políticos, cidadãos e jornalistas tentando explicar a calamidade. Ainda assim, não foram poucos os que, por razões alheias à ciência, preferiram atribuir o fato a fenômenos naturais aleatórios ou a conspirações políticas imaginárias, inserindo-o num debate ideológico que desinforma os menos informados.
Circularam nas redes, vídeos apócrifos e posts oportunistas “alertando” as pessoas (sim, é verdade!) para os “riscos” de agendas supostamente “perniciosas” como a 2030, da ONU, e a de ESG empresarial—não por coincidência, movimentos que propõem, ao contrário do que pregam os seus detratores, respostas sensatas para a “policrise” da humanidade.
Compreender as causas da emergência climática não diminui a força dos seus eventos extremos. Muito menos atenua a dor dos que perderam casas e familiares. Ou a nossa dor pela dor de nossos compatriotas. Mas provoca um choque de realidade.
Ao mesmo tempo em que ajuda a desmontar a ilusão paralisante de que estamos diante de uma fatalidade, algo imprevisível e, portanto incontrolável, aumenta o senso de vigilância e invoca o necessário desconforto que pode levar indivíduos, governos e empresas a adotarem estratégias efetivas de mitigação e adaptação.
Segundo pesquisa da Quaest, 64% dos brasileiros enxergam uma relação clara entre as enchentes sulinas e as mudanças climáticas. Cerca de 78% e 44% afirmam já terem experimentado desastres ambientais como o calor extremo e inundações.
Esses números reforçam um estudo interessante da Fundação Boticário e Unesco, publicado em novembro de
preocupados com o tema. Um a cada três indivíduos já sofreu na própria pele ou na pele de pessoas próximas os impactos de temporais (45%), ventanias (21%), inundações (21%), ondas de calor (20%), estiagem (7%) e desmoronamentos (5%.) A pesquisa revela ainda uma preocupação clara com os efeitos econômicos dos eventos climáticos extremos: o aumento no preço dos alimentos é o primeiro e mais temido efeito colateral.
Além de sangrar no bolso, a emergência climática ceifa vidas, destrói cidades e ameaça o futuro das pessoas. Exige investimento em políticas públicas de adaptação que incluem aumentar áreas verdes, restaurar mangues, florestas e ecossistemas degradados. Requer um esforço global de colaboração entre setores na mudança do jeito de produzir e consumir.
Nesse sentido, o mesmo estudo traz uma boa nova. A maioria dos entrevistados se vê como responsável pelo problema. E este é o primeiro passo para a ação. Cerca de 87% admitem mudar de hábitos em benefício do planeta, reciclando e descartando corretamente o lixo (24%) ou plantando árvores (15.) Aos 19% que disseram não saber como fazer, ficam duas dicas: passem a cobrar dos gestores eleitos que invistam em financiamento público para a adaptação climática; e prefiram produtos de empresas que não derrubam florestas e controlam suas emissões de gases de efeito estufa.
Alguma coisa está fora de ordem, como dizia a famosa canção de Caetano Veloso. Ou a nova ordem mundial aceitou de bom grado flertar com o iminente caos e normalizar o alto risco para a existência humana em um planeta cada vez mais quente.
Esta é uma das conclusões possíveis ao fim da COP29, realizada em novembro, na cidade de Baku, no Azerbaijão. Classificar como decepcionante a declaração (ou arremedo) de financiamento climático, firmada aos 49 minutos do segundo tempo, seria chover no molhado.
Afinal, as últimas conferências das partes têm sido invariavelmente frustrantes entre outras razões porque os países ricos, apegados às suas estratégias locais, seguem fazendo menos do que deveriam para enfrentar o grave risco global representado pela emergência climática.
O financiamento para a adaptação dos países em desenvolvimento—vale lembrar- vem sendo discutido há três décadas, desde a Convenção Quadro de 1992. Passou a ser cobrado, com maior ênfase, em 2009, na COP 15, na Dinamarca. E começou a pingar (US$ 100 bilhões) apenas em 2022. Subdimensionar valores, adiar decisões urgentes ou mesmo apostar na inação significa hoje entregar o futuro nas mãos do acaso. Como se habitar Marte fosse uma opção. Como se ignorar o problema ele se resolvesse sozinho.
A nova ordem mundial parece insanamente confortável no desconforto. Não é só a ilha de Tuvalu, no Pacífico, que vai sucumbir aos efeitos do já próximo aumento de 1,5º C acima dos níveis pré-industriais. Para ficar em apenas três catástrofes anunciadas, menos gelo na Groenlândia, a falência dos sistemas tropicais de recifes de corais e o derretimento do permafrost no solo ártico exigirão um nível de resiliência ainda não experimentado pelos seres humanos. Com todo tipo de dores, perdas e custos.
Voltemos aos números. No apagar das luzes da COP 29, o máximo que os diplomatas do clima conseguiram arrancar à força foi o aporte chorado de, no mínimo, US$ 300 bilhões até 2035 e a “promessa” de esforço conjunto, entre governos e empresas, para chegar à cifra considerada “necessária” de US$ 1,3 trilhão, aumentando mais à frente o apoio para algo como US$ 250 bilhões por ano. Há quem defenda a urgência de um cálculo menos conservador: US$ 6,7 trilhões seria, na verdade o montante necessário para barrar o caos climático.
À primeira vista, o pacote pode até parecer generoso. Sejam os US$ 300 bilhões agora ou US$ 250 bilhões/ano possíveis no futuro, os valores seguem, no entanto, aquém das obrigações contratadas no Acordo de Paris (2015).
Segundo a ciência do clima, controlar o curso do aquecimento global exigirá uma redução de 7,5% ao ano nas emissões a partir de agora, com financiamento começando hoje para resolver o problema até 2025. Mirar 2030 ou 2035 pode ser tarde demais.
Essa promessa de US$ 250 bilhões por ano soa ainda mais mesquinha se comparada com outros números. Representa só a quarta parte do orçamento de defesa dos EUA e 0,3% do PIB total dos países de alta renda, aqueles que historicamente mais contribuíram para o aumento do volume de CO2 na atmosfera. Em 2022, US$ 7 trilhões viraram subsídio para combustíveis fósseis.
O dinheiro existe. As energias renováveis estão ficando cada vez mais baratas. E o mercado de carbono tem surgido como um instrumento útil, embora não suficiente, para mitigação e adaptação climáticas.
Não se trata, portanto, de uma crise de recursos. Mas de natureza humana. Os que tomam a decisão sobre recursos parecem mais interessados em justificar a procrastinação do que assumir responsabilidade pelo bem comum. Como Caetano na música com a qual abri o artigo, não espero pelo dia em que todos os homens concordem. Apenas sei de diversas harmonias bonitas sem juízo final.