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Esg, Escorpiões e Curto-prazismo

A fábula do escorpião ilustra o curto-prazismo em ESG. Muitas empresas sabem o que é certo, mas não conseguem mudar sua natureza imediatista. O foco no trimestre prejudica decisões sustentáveis de longo prazo.

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Por
Ricardo Voltolini
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15.06.2026
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10 min
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Você certamente já ouviu falar na parábola do sapo e do escorpião. Há versões dela com diferentes bichos e morais, em diferentes culturas. Um escorpião pede ao sapo que o transporte para a outra margem do rio porque ele não sabe nadar. Resistente, o anuro alega receio de ser picado pelo “passageiro”, que o convence com um argumento racional: se fizer isso, ambos morrem. No meio do trajeto, ele não se contém, fere o sapo e os dois afundam sem vida. Moral: a natureza fala mais forte! Existe uma versão pouco mais cruel: pragmático, o escorpião espera cumprir a travessia do rio para então, aracnídeo que é, exercer a força de sua “natureza.”​ Lembrei da fábula depois de ler hoje recente boletim da BlackRock. Nele, a maior gestora de ativos do mundo, uma das propulsoras globais do conceito de ESG, resolve afrouxar o rigor com que vinha tratando empresas investidas não compromissadas com as mudanças em suas matrizes energéticas. Uma surpresa para quem tinha no CEO da empresa, Larry Fink, um parceiro estratégico do mercado na luta contra as mudanças climáticas. O documento (https://lnkd.in/dsh254PD) diz que, ao contrário de 2021, as propostas de políticas climáticas apresentadas por acionistas em 2022 são demasiadamente “prescritivas e constrangedoras”, porque não se baseiam em relatórios razoáveis de emissões e riscos.

Levando em conta, por um lado, o contexto (“a situação geoeconômica, as pressões do mercado de energia e as implicações disso para a inflação”), e, por outro, o seu dever fiduciário (zelar pelos interesses econômicos de longo prazo dos acionistas), a BlackRock decidiu “apoiar proporcionalmente menos” as políticas climáticas nas assembleias corporativas. Essa medida se alinha com decisão tomada por investidores dos três maiores bancos norte-americanos (Wells Fargo, Bank Of America e Citibank), no início de abril, de não financiar propostas climáticas de empresas. Nenhuma novidade. É da natureza gananciosa do sistema financeiro rechaçar tudo aquilo que pode comprometer o seu ganho de curto-prazo, ainda que, como no caso, das mudanças climáticas, renúncias precisem ser adotadas agora para garantir alguma prosperidade no longo prazo. O recuo da BlackRock surpreende mais porque não foi sequer sinalizado na carta aberta de Fink em janeiro último. Ocorre num cenário em que, depois de dois anos de crescimento de dois dígitos, as ações da Black Rock caíram 25% em 2022. (https://lnkd.in/dSD7iN93) ESG não rima com curto prazo. Enquanto o sistema de metas dos executivos for baseado no imediatismo, enquanto dos mandatos de CEOs e Conselhos de Administração forem mais curtos, o ESG vai caminhar no ritmo que interessa ao mercado não às pessoas e ao planeta. É da natureza aracnídea do mercado.