Estudo de 15 anos revela que líderes sustentáveis são exceção. A sustentabilidade está na epiderme, não no DNA das empresas. CEOs usam o conceito de forma utilitária, gerando desconfiança e adoecimento dos colaboradores.

Há quinze anos, estudo liderança e sustentabilidade. Tempo suficiente para entender que é um assunto marginal para os líderes, as empresas e a estrutura de negócios que vive de fabricar tendências para vender soluções corporativas.
Também. há quinze anos, entrevisto líderes tentando compreender o impacto de uma visão orientada por valores no sucesso dos negócios. Tempo demais, concluo hoje. Ouvi cerca de 500 líderes. Líderes demais, admito. Metade dessas conversas acrescentou pouco à missão de descobrir como pensam, agem e tomam decisão líderes mais compromissados com a sustentabilidade.
Líderes sustentáveis representam uma exceção.
Pergunte a alguém do seu círculo se conhece de perto uma liderança C-level cuidadosa, inclusiva, ética e transparente, justa e orientada por propósito, preocupada em tomar decisões de negócios que melhorem a vida do outro e do meio ambiente. Tenho feito isso no último ano.
Nas entrevistas on the record, a minoria que sentiu vontade de falar citou nomes já conhecidos como os de Fábio Barbosa (Natura), Cristina Palmaka (SAP) e Luiza Trajano (Magalu.) No passado, o assunto gerava entusiasmo. Hoje, provoca algo entre indiferença e desconforto.
Nas conversas off the record, normalmente mais francas, as respostas só reforçam um certo clima de desconfiança reinante: sustentabilidade está na epiderme, não na corrente sanguínea; as incoerências entre discurso e prática, mas principalmente entre valores humanos e decisões de negócios, antes causavam fastio. Hoje drenam energia, destroem engajamento e adoecem mentes e corações.
Só os CEOs parecem não ter compreendido a gravidade do quadro. Cegos por conveniência, viciaram-se no uso utilitarista do conceito de sustentabilidade como uma espécie de virtude que faz bem à imagem e agrada nas falas narcisistas de eventos corporativos.
No fundo, eles sabem que usar a sustentabilidade para mostrar crença e propósito, sem correspondência com uma cultura orientada por valores, é uma espécie de autoengano cômodo. Sobram adjetivos. Faltam verbos e verbas.
Os relatos em off sinalizam, na verdade, um conflito interno que os líderes preferem achar que não existe. Apresento trechos de quatro das mais de 50 conversas realizadas:
“Aqui temos a cultura de sustentabilidade reborn. Dizem que ser sustentável está no nosso DNA. Mentira. Mas somos levados a acreditar que é verdade para manter a necessária aura de virtude.”, ironizou uma das fontes.
“Vivo mergulhado no cinismo do seriado The Office. O mesmo líder que lançou o programa de diversidade, alegando compromisso com a inclusão, não teve coragem para explicar por que a empresa o interrompeu”, contou um executivo de recursos humanos.
“Minha fé no assunto desceu pelo ralo no dia em que a gestora de sustentabilidade foi desligada ao retornar da licença maternidade. O silêncio da primeira reunião foi constrangedor”, confidenciou outra gestora millennial.
“Pediram-me para estruturar um projeto de consumo consciente que ‘gerasse valor.’ Não consegui chegar ao final da apresentação para o nosso VP. Quando soube do tema, o executivo interrompeu irritado, dizendo que deveríamos estar mais preocupados em estimular as clientes a comprarem o maior número possível de bolsas e sapatos. Não deu tempo nem de dizer que era um projeto social para a comunidade. Cansei”, confessou um jovem profissional de ESG.
Vivemos a entropia de uma crise de walk the talk. Elevada à máxima potência com o movimento global anti-ESG, essa crise ajuda a entender, mas não esclarece por completo o desgaste do tema nas empresas. É certo que os liderados não acreditam mais em liderança orientada por valores quando não se sentem apoiados por uma cultura de valores.
Numa espécie de casamento por conveniência, os líderes também não valorizam o exercício de uma liderança sustentável.
Primeiro, porque não se sentem mais tão cobrados pelo meio.
Segundo, porque não querem ser julgados por seus valores. Nem por metas que consideram acessórias ao negócio. Preferem focar no fim e não nos meios. Preferem o crivo exclusivo dos resultados de curto prazo, porque valores impõem limites éticos – e por tabela, custos -- à velha equação de sucesso econômico que eles não desejam ter.
O quadro só piorou nos últimos dois anos com a ascensão da onda contra a sustentabilidade nascida e alimentada nos EUA sob a égide de Trump.
Segundo o estudo “Líderes de Negócios e ESG”, realizado em 2025 por Data Makers/CDN, o número de CEOs brasileiros que consideram ESG um tema relevante caiu de 89% (2024) para 83% (2025.)
Quem poderia cobrar mais — os conselhos de administração — também não parece muito interessado no assunto senão pontualmente.
Há saídas, no entanto, para este quadro. E elas passam por reconhecer que a múltipla crise exterior (econômica, social, ambiental, geopolítica) nada mais é do que o resultado de uma crise interior (de valores, atitudes e escolhas) entre os que tomam decisões. Vamos falar disso?