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Por que os Seus Filhos Sentem Menos do que Você a Evolução do Aquecimento Global?

A 'síndrome da mudança de linha de base' faz com que cada geração aceite condições climáticas piores como normais. Isso dificulta a mobilização contra o aquecimento global, pois as pessoas não percebem a anormalidade.

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Por
Ricardo Voltolini
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15.05.2026
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10 min
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Quem se importa com o aumento da temperatura média do planeta? Por que os seus filhos sentem menos do que você os efeitos das mudanças climáticas?

O ano de 2023, o mais tórrido nos últimos 175 anos, foi 0,15ºC mais quente do que o ano de 2016 que vinha mantendo o recorde de temperatura pós-revolução industrial. 2024 estabeleceu uma nova marca. Pela primeira vez, ultrapassamos o limite de 1,5ºC, definido como seguro no Acordo de Paris (2015).

Parte desse aumento pode ser atribuído ao El Niño, um conhecido fenômeno climático que aquece o Oceano Pacífico tropical e muda os regimes de chuva e temperatura em todo o mundo.

No entanto, segundo os cientistas, o quadro indica principalmente uma expansão do aquecimento global provocado pelo aumento das emissões de gases de efeito estufa.

Quem se importa com o aumento da temperatura média do planeta a ponto de tentar mudar a situação? —repito a pergunta inicial, acrescentando um elemento.

Não há otimismo no prognóstico da ciência. A expectativa é que, na próxima década, o mundo superará o limite de 1,5ºC na maioria dos anos, provavelmente em todos. Com as atuais metas ambientais estabelecidas pelos países consideradas pouco ambiciosas, pode-se chegar a um aumento de 3ºC até 2100, o que significa, na prática, enfrentar mais chuvas extremas, mais dias muito quentes e um maior número de desastres, como incêndios florestais e secas.

Daqui a 15 ou 20 anos, quando as temperaturas estiverem tão altas como prevê a ciência, o mais provável é que nenhum de nós lembrará de 2024 como um ano particularmente quente. Talvez até, em perspectiva, enxerguemos como um ano de clima mais brando. Para os nascidos hoje, o clima quente e os eventos climáticos intensos do futuro serão vistos como comuns.

A este tipo de “armadilha mental” os cientistas de comportamento dão o nome de “síndrome da mudança da linha de base”, um mecanismo pelo qual as pessoas se adaptam muito rapidamente às condições ambientais experimentadas num determinado momento por pior que elas sejam. Esse truque cognitivo costuma gerar uma tolerância enganosa em relação aos padrões ambientais da sociedade, algo que vale para a poluição do ar, o desmatamento de florestas, o lançamento de plástico nos mares e a extinção de espécies animais.

Para especialistas, a síndrome da mudança de linha de base joga contra os esforços de mitigação porque induz as pessoas a não verem anormalidade no aquecimento do planeta. Como a solução para conter o aquecimento global e suas consequências exige necessariamente alterar o comportamento de indivíduos e da sociedade, a síndrome funcionaria como uma trava cognitiva silenciosa contribuindo, entre outras coisas, para uma baixa valorização e reconhecimento social da questão mais desafiadora da humanidade no século 21.

Faz sentido. O conceito de síndrome da mudança de linha de base foi criado nos anos 1990 pelo biólogo francês Daniel Pauly. À época, após uma investigação sobre ictiologia, o pesquisador identificou que os jovens pescadores tinham uma falsa impressão de abundância de peixes embora os dados históricos revelassem, na verdade, uma queda significativa nos estoques. A percepção distorcida, concluiu Pauly, era consequência da falta de conhecimento e de memória sobre o estado inicial daquele ecossistema.

No último inverno, vivi uma experiência similar com a minha filha. Em um domingo com temperatura excepcional de 12 graus, em São Paulo, ela afirmou que nunca tinha experimentado tanto frio na cidade em toda a sua vida. Lembrei-a que, vinte anos atrás, durante sua infância, eram comuns, no inverno paulistano, temperaturas de 7/8 graus. Não só pontualmente ao longo de alguns poucos dias. Mas, às vezes, durante um mês. Sua reação foi de estranheza e ceticismo. Certamente, o leitor já passou por situações semelhantes.

A considerar os fatos de que a vida é curta e a memória falha, os humanos não têm uma noção clara de quanto a natureza foi destruída por sua intervenção: as “linhas de base” mudam de geração e, às vezes, até ao longo da vida de um indivíduo. Um ecossistema que hoje nos parece intocado seria visto como muito degradado por nossos ancestrais e absolutamente natural por nossos filhos e netos.

Especialistas no assunto temem que a síndrome da linha de base pode atrapalhar a evolução no enfrentamento das mudanças climáticas e das ações ambientais preventivas. A impressão equivocada de que o clima segue “estável” e o ambiente permanece “inalterado” pode resultar –creem- na diminuição do apoio a políticas de mitigação, adaptação e conservação e na menor ambição de metas formuladas pelos legisladores. Na prática, o que preocupa os pesquisadores é que a alta tolerância por falta de parâmetros iniba a vontade das pessoas de adotarem hábitos de consumo mais sustentáveis e cobrarem maior intervenção por parte de empresas e governos.

Há controvérsia, no entanto, entre os cientistas interessados no tema. Nem todo mundo concorda com a tese de que a amnésia ambiental/climática seja o único fator a impedir uma mobilização de massa no enfrentamento das mudanças climáticas. É o caso de Adam Aron, diretor do Laboratório de Psicologia e Ação Climática da Universidade da Califórnia (EUA.)

Em defesa de sua opinião, ele apresenta dados que permitem uma conclusão contrária: mesmo em regiões nas quais as pessoas demonstram maior consciência em relação à crise ambiental não há indícios claros de que estejam agindo mais ou exigindo mais atitudes dos seus representantes eleitos.

Para Aron—tendo a concordar com ele— uma mudança de opinião em questões ambientais não significa, nem de longe, mudança de comportamento. É certo que a ciência do clima tem exercido uma contribuição relevante para alterações de opinião pública num mundo ainda assolado por movimentos de desinformação sobre mudanças climáticas. A transição dessa mudança de pensamento para a de comportamento exigirá abordagens mais “práticas”, que Aron chama de “não analíticas.”

Planejadores cumprirão melhor o seu papel, por exemplo, se estimularem a mudança de comportamento por meio de criação de leis e incentivo a novas normas sociais. “Se os nossos parentes e vizinhos colocarem painéis solares e eletrificarem suas casas, certamente desejaremos fazer o mesmo”, acredita o pesquisador.