Reflexão crítica sobre o ESG superficial. Muitas empresas tratam o tema como diletantismo, sem compromisso real. A sustentabilidade exige profundidade, consistência e ação efetiva além do discurso.

"Os líderes seriam mais sábios se lessem poesia", disse certa vez o escritor e diplomata mexicano Octávio Paz. Relembrei a frase depois de conversar ontem com um super líder empresarial, absolutamente orientado por valores, um dos meus mais queridos mentores. Ele tem uma opinião ao mesmo tempo curiosa e cativante: líderes devem ler poesia e romance, experimentar teatro, música, cinema e artes plástica e viver, no cotidiano, situações humanas que sirvam de alimento para a alma, não só para o intelecto.
Entre outras razões, porque, cada vez mais, as decisões de negócio serão, a rigor, mais humanas do que técnicas. Só consegue compreender profundamente, com empatia, o impacto de uma decisão de negócio para as pessoas quem consegue sentir as dores, anseios e incertezas da existência humana. Só consegue sentir quem está em conexão com o outro e com a vida. Para pensar.
Ensinar a identidade terrena
“O destino planetário do gênero humano é outra realidade até agora ignorada pela educação. O conhecimento dos desenvolvimentos da era planetária, que tendem a crescer no século 21, e o reconhecimento da identidade terrena, que se tornará, cada vez mais, indispensável a cada um e a todos, devem converter-se em um dos principais objetos da educação.
Convém ensinar a história da era planetária, que se inicia com o estabelecimento da comunicação entre todos os continentes do século 21, e mostrar como todas as partes do mundo se tornaram solidárias sem, contudo, ocultar as opressões e a dominação que devastaram a humanidade e que ainda não despareceram.
Será preciso indicar o complexo de crise planetária que marca o século 20. Mostrando que todos os seres humanos, confrontados, de agora em diante, com os mesmos problemas de vida e morte, partilham um destino comum”
Edgar Morin, Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro
Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro (2000) é um dos meus livros de cabeceira há muitos anos. Cito-o em palestras, artigos e livros, sempre com o entusiasmo de quem acabou de se deixar arrebatar por ideias tão provocativas e libertárias. Edgar Morin, o autor, inclui-se na minha lista das mais importantes referências intelectuais. Acompanho-o como leitor há quatro décadas. Mais do que leitor, tornei-me seu discípulo em 2014 quando o conheci pessoalmente num curso sobre liderança sustentável que idealizei com amigos, na Sorbonne, em Paris. Experiência memorável.
Naquela ocasião, tive a oportunidade de confessar não apenas o meu apreço mas, sobretudo, o quanto Sete Saberes modificou a minha maneira de tratar a educação num contexto mais amplo de sustentabilidade. Contei-lhe ainda que enxergava na obra uma espécie de manifesto sobre a esperança, observação a que ele reagiu com um largo e sereno sorriso.
Antológico da primeira à última linha, Sete Saberes trata da transformação e da formação, do movimento de reconexão de cada um de nós com todos nós e da reconexão de cada um de nós com a natureza que nos empresta a vida. Morin é um pensador amoroso cuja proposição é a da esperança. Não no sentido reativo do termo, o de esperar passivamente que algo bom aconteça como oferenda do destino. Mas no sentido proativo do “esperançar” pregado pelo educador Paulo Freire, aquele que evoca a ideia ativista de imaginar com fervor, levantar-se, correr atrás e construir o que se deseja Esperançar é algo que está na base da doutrina pragmática dos 17 ODS e dos seus 169 objetivos da ONU.
E é também um preceito que brota de cada linha do primeiro importante relatório sobre desenvolvimento sustentável, Nosso Futuro Comum (1988) e de sua mensagem-chave: consumir e produzir hoje sem prejudicar o direito das próximas gerações aos mesmos recursos naturais que os nossos antepassados nos deixaram como legado.
Em Sete Saberes, Morin se propõe a refletir sobre o necessário reencontro do homem consigo mesmo, em todas as suas dimensões, celebrando, por exemplo, a mágica religação do indivíduo com a natureza como expressão de uma única manifestação da vida, sem dicotomias e sem espaço para uma existência predatória e desagregadora.
Vejo Sete Saberes como uma certidão do pensamento complexo e ecologizado, uma obra de relevância única capaz de relacionar, contextualizar e reunir diferentes saberes ou dimensões da vida. E também de pregar uma reumanização da humanidade, com base em mentes e corações mais abertos, escutas mais sensíveis, pessoas mais responsáveis e comprometidas com a transformação de si e do mundo.
Embora sua mensagem seja originalmente sobre educação, dirigida a educadores, o livro se aplica, mais do que metaforicamente, a todos aqueles que estão em papeis de educação—sejam eles pais, mães, tutores, jornalistas, formadores de opinião e líderes de governos, organizações da sociedade civil e de empresas.
Estende-se também aos que estão em processo vivo de autodesenvolvimento, aperfeiçoando virtudes como empatia, solidariedade, altruísmo e justiça. Alcança todos aqueles que, conseguindo sair da sua bolha individualista, têm se aberto para a ideia redentora de que enfrentar a grande crise planetária (social, econômica, ambiental e política) requer, como propõe Morin, o desenvolvimento da compreensão, da condição humana, da cidadania planetária e da ética do gênero humano.
O conhecimento, segundo Morin, precisa ser transdisciplinar. Se quiser ser efetivo, deve considerar não apenas as necessidades dos indivíduos como objetos de um sistema mercantilista de relações no qual eles valem pelo que sabem e por como vendem o que sabem; mas sujeitos, que valem pelo que são, numa equação que exige incorporar também a relação com a sociedade e a natureza.
Entre os saberes propugnados por Morin está o conhecimento pertinente. Segundo ele, os saberes se encontram equivocadamente apartados nos sistemas de ensino atuais. E essa separação prejudica compreender, num mundo complexo, as relações mútuas e as influências recíprocas entre as partes e o todo.
Para fortalecer a importância dessa reflexão, recorro ao exemplo das mudanças climáticas. Talvez este seja, no momento, um dos grandes desafios da humanidade. Senão, o seu principal contratempo.
De acordo com os cientistas do clima, estamos esgarçando os limites do aumento da temperatura média do planeta. E, em 2024, ultrapassamos pela primeira vez a marca de 1,5º Celsius considerada segura pelos estudiosos, a partir da qual a humanidade passará a ter que exercitar um nível de resiliência ainda não praticado.
Este parece, a princípio, um problema complexo, do tipo que só pode ser discutido entre físicos, climatologistas e meteorologistas, nas grandes universidades, com base numa linguagem hermética e num repertório de difícil acesso a leigos.
Mas a crise do clima não é apenas uma crise ambiental cuja resposta se circunscreve a um círculo de experts.
É também uma crise econômica, pois os impactos do aquecimento global, e a consequente intensificação dos fenômenos climáticos, afetam as balanças comerciais dos países.
Também é uma crise social importante na medida em que as pessoas mais pobres estão sendo as primeiras a sofrerem os efeitos lesivos de inundações, furacões, falta de água e de segurança alimentar.
Também é uma crise política. Governos de países precisarão superar a defesa muitas vezes egoísta de sua soberania geopolítica e dos seus interesses comerciais para propor políticas urgentes e eficazes de redução das emissões de gases de efeito estufa até 2030.
E é ainda uma crise de origem ética. A saída para ela passa necessariamente pelo reconhecimento, por parte de cada indivíduo, de que a natureza não está a nosso serviço, e que, sendo, a rigor, extensão dela, não podemos pressionar os seus recursos a ponto de esgotá-los. Ao pregar a necessidade de uma reconexão do indivíduo com a natureza, Morin trata da ideia redentora de abandonarmos, de uma vez por todas, o mero papel de usuário dos seus serviços.
Ainda segundo Morin, o estado atual de degeneração do patrimônio natural requer que escutemos afetivamente “suas dores e mortes.” Ou suas dores e mortes, mais do que uma licença poética, serão crescentemente nossas dores e mortes.
A perspectiva da crise climática como um problema exclusivo de climatologistas acaba por empobrecer o conhecimento disseminado no debate. Compartimentaliza, desumaniza e nos afasta da ampla mobilização necessária à solução do problema.
Observa-se esse empobrecimento, por exemplo, quando professores ensinam as mudanças climáticas apenas como um conjunto de apontamentos científicos abstratos, ou quando, na mesma linha, tratam a Amazônia como uma grande mancha verde no mapa do Brasil, um santuário ecológico onde habitam comunidades indígenas, deixando de lhe conferir sua verdadeira importância geopolítica na regulação do clima global.
É notória a ausência de contextualização quando jornalistas apressados fazem a cobertura de grandes secas, queimadas e enchentes como se esses fenômenos representassem uma ocorrência meteorológica aleatória, sem destacar a correlação antrópica já conhecida com o atual modelo de produção e consumo e, por tabela, com o quadro de mudanças climáticas.
A visão cindida, não sistêmica e não interdependente, salta aos olhos quando organizações da sociedade civil realizam campanhas públicas pelo consumo consciente de água e energia sem, no entanto, ressaltar que o modo como escolhemos produtos num supermercado, por exemplo, pode contribuir muito mais para melhorar ou piorar a situação de aquecimento global.
Uma abordagem simplista, incapaz de possibilitar a identificação dos nexos de causa e efeito, cria as condições para uma indiferença alienante: se o problema não é nosso, mas do outro distante ou do “especialista”, então por que deveríamos pensar nele e, mais ainda, participar de sua solução. Impossível compreender a crise climática e suas extensões sem considerar uma perspectiva orientada por visão sistêmica e uma noção de interdependência. Sem assimilar profundamente, como nos sugere Morin, o sentido da cidadania terrena, e incorporar o entendimento de que, confrontados com nossos “problemas de vida e morte,” partilhamos, querendo ou não, um destino comum pelo qual somos todos responsáveis.
As contracorrentes e a esperança
“Pode se esperar uma política a serviço do ser humano, inseparável da política de civilização, que abriria o caminho para civilizar a Terra como casa e jardim comuns da humanidade.
Todas essas correntes prometem intensificar-se e ampliar-se ao longo do século 21 e constituir múltiplos focos de transformação, mas a verdadeira transformação só poderia ocorrer com a intertransformação de todos, operando assim uma transformação global, que retroagiria sobre as transformações individuais”
Gosto muito desta reflexão de Morin em Sete Saberes, sobretudo porque ela propõe a utopia da esperança por uma união planetária. Construída com base na identidade terrena comum a todos nós, ela evoca um sentimento de pertença mútuo que nos une à Terra, nossa primeira e última Pátria. É justamente a consciência de que somos uma mesma comunidade de destino planetário que, na visão de Morin, vai nos guiar na solução dos nossos problemas comuns de “vida e morte.”
Otimista em relação ao processo de mudança em curso, Morin atribui alta importância ao que ele chama de contracorrentes, definindo-as como “emancipadoras.”
Nunca é demais lembrar que o livro foi escrito no simbólico ano de 2000, no limiar da virada para o novo milênio. E algumas dessas contracorrentes—vale destacar-- eram, à época, apenas sinais tênues. Logo Morin não tinha ideia de como elas se desdobrariam com o tempo, fato que só confirma o poder de sua leitura do futuro.
Entre as mais relevantes, o sociólogo francês menciona seis:
(1) A contracorrente ecológica. É a resposta de um grupo cada vez maior de indivíduos conectados com a natureza ao aumento das degradações, dos grandes acidentes ambientais, do desmatamento e da poluição plástica nos oceanos. Essa contracorrente nasce de crescente consciência ecológica, isto é, da ideia de habitar, com todos os seres mortais, uma mesma esfera viva (biosfera)
(2) A contracorrente pela qualidade de vida, que pode ser caracterizada pela expansão do consumo de alimentos orgânicos, vegetarianismo, veganismo, produção de hortas urbanas, maior interesse por prática de esportes e meditação, reconexão com a natureza nos parques urbanos, e equilíbrio entre trabalho e vida pessoal. Seguindo a mesma lógica, merecem destaque também movimentos como o slow food (nascido na Itália, em 1986) que conjugam a qualidade do alimento com a produção e distribuição com menor impacto ambiental e maior impacto social positivo na cadeia de valor. Essa contracorrente acentua a consciência antropológica, que reconhece a unidade na diversidade. Tão importante quanto isso, amplia o nosso compromisso de “humanos planetários” com a “obra essencial da vida,” que é, como filosoficamente sugere o sociólogo francês, resistir dignamente à morte.
(3) A contracorrente de resistência ao consumismo ou aos exageros do consumo. Há um movimento crescente de consumo consciente em todo o mundo, puxado, em grande maioria, pelas gerações X e Y—que querem comprar produtos de origem socioambientalmente correta, que não admitem adquirir produtos vindos de áreas desmatadas da Amazônia ou com sofrimento para os animais, que fazem protestos diante de empresas que tratam mal seus colaboradores, comunidades e fornecedores. Um exemplo interessante é o do setor de fast fashion, conhecido, no passado, por práticas de desrespeito a direitos humanos na cadeia de suprimentos e por baixo compromisso com os impactos ambientais. Foi justamente o ativismo do jovem consumidor, e a sua nova régua de valoração no consumo, que levaram a um monitoramento rigoroso de toda a cadeia de valor, rastreamento de produtos, uso de insumos mais sustentáveis, adoção de uma visão de economia circular e maior compromisso com as comunidades impactadas pelas empresas.
(4) A contracorrente da oposição à ideia do acúmulo do dinheiro como projeto de vida e noção de sucesso. As novas gerações já não admitem mais a ideia da felicidade a longo prazo. Querem felicidade à vista. Querem trabalhar com o que gostam, aprender e se divertir enquanto produzem, equilibrar o trabalho com a vida pessoal, e construir legado enquanto vivem, não ao final de uma carreira de três décadas. São notórios os movimentos mundo afora de jovens herdeiros de fortunas, por exemplo, praticando filantropia ou investimento em negócios de impacto social.
● Crescem também, em todo o mundo, movimentos minimalistas, de simplicidade voluntária. Seus adeptos escolhem um jeito simples de viver em busca de maior conexão com a natureza, por razões de saúde, qualidade de vida, redução de estresse e espiritualidade. Eles abrem mão do consumismo, valorizam produtos manufaturados no lugar dos industrializados, priorizam empresas menores e locais, dependem menos de tecnologia e serviços. Optam por cultivar a dimensão do “ser” em substituição à do “ter.”
(5) A contracorrente da resistência à vida prosaica. É uma oposição ao apequenamento da vida guiado pelo utilitarismo. E uma celebração ao propósito, à ideia de que a vida não se resume a um encadeamento aleatório de fatos banais, mas à contemplação, ao autoconhecimento, à espiritualidade, à convivência, artes e à alegria. Isso explica, por exemplo, os coletivos de artes espalhados nas periferias do Brasil oferecendo espaço para expressão de formas marginalizadas de culturas como o rap, o grafite, as danças de rua, a moda sustentável. Durante a pandemia, oprimidos que estivemos com o isolamento social, muitos de nós buscaram adotar atividades ligadas à leitura, aprendizagem, música e formação de grupos virtuais de interesse.
Esse tipo de contracorrente, segundo Morin, fortalece a consciência espiritual da condição humana, que decorre do exercício complexo do pensamento e que nos permite, ao mesmo tempo, autocriticar-nos, criticarmo-nos e compreender-nos uns aos outros.
(6) Morin menciona uma última contracorrente, ainda tímida segundo ele, de respostas aos fluxos crescentes de violência. Formado por grupos de pessoas cujo objetivo é trabalhar pela pacificação, adotando diferentes métodos de ação, como meditações em grupo ou grupos de defesa de causas relacionadas à paz. Essa contracorrente reforça, na visão do sociólogo francês, a importante noção de “consciência cívica terrena”, isto é, a responsabilidade e a solidariedade para com os filhos da Terra.
Ética do gênero humano, reconexões e níveis de consciência
Uma das mais inspiradoras definições de Morin é a da “antropoética”, nome que ele confere à ética do gênero humano. Segundo o pensador francês, a antropoética supõe a decisão consciente de, entre outras coisas, trabalhar para a humanização da humanidade, alcançar a unidade planetária na diversidade, respeitar, no outro, a diferença e a identidade, e desenvolver as éticas da solidariedade e da compreensão.
A antropoética, na visão de Morin, exerce um papel relevante como vetor contemporâneo da esperança. Praticá-la ou não, na plenitude de suas possibilidades, depende do nível de cidadania planetária de cada um de nós. Nem todos os indivíduos encontram-se no mesmo estágio de consciência e desenvolvimento humano.
A este ponto da reflexão, recorro ao filósofo norte-americano Ken Wilber, fundador da chamada Teoria integral. Para ele, a humanidade é formada por grupos em quatro estágios gerais de desenvolvimento de consciência. E todo nós podemos identificar, no nosso dia a dia, indivíduos com tais características.
Se imaginarmos uma espiral evolutiva, como propõe Wilber, na primeira camada estão os egocêntricos. São indivíduos extremamente autocentrados para os quais o mundo e a vida se resumem a eles próprios e às suas rotinas. Suas relações, incluindo as amorosas, são sempre pragmáticas e utilitárias. Narcisistas, estão ocupados demais consigo próprios para participar de uma assembleia de condomínio, ir à reunião de pais e mestres, solidarizar-se com o amigo doente no escritório, visitar os pais envelhecidos ou mesmo brincar com o filho no parque.
Demasiadamente individualistas, não se conectam com o outro nem com a natureza. A natureza, aliás, é apenas uma coleção de cenários para o filme que escolheram viver. O outro apenas faz figuração. Ambos são desimportantes. Indivíduos típicos deste modelo mental são aqueles que, no avião, compram as duas cadeiras ao lado para não serem “incomodados por outras pessoas”, são os que deixam lixo nas praias sem se importar com o impacto do ato para as pessoas e o os ecossistemas, são os líderes que insistem, por conveniência, no uso energético do petróleo e do carvão, sem qualquer preocupação com a escalada do aquecimento global que nos afeta a todos.
Na segunda camada, encontram-se os etnocêntricos. Ao contrário dos egocêntricos, eles enxergam e se preocupam com o outro desde que o outro pertença à sua família ou à sua tribo, que tenha algo em comum—time de futebol, nacionalidade, religião, hoby, ideologia, raça, sangue.
Para Wilber, 70% da população mundial ocupa os níveis ego e etnocêntricos. Vivem a ilusão consentida de que eles e seus coletivos próximos se bastam. E que todo o resto é um mero detalhe.
Não festejaram a queda do muro de Berlim, em 1989, porque o assunto só interessava aos alemães, comunistas e capitalistas.
Não se emocionaram com a história de cidadão negro, George Floyd, morto em 2020 por policiais norte-americanos, porque racismo é problema da violência do outro.
Não se solidarizaram pela morte de quase 700 mil brasileiros, vitimados pela Covid-19, porque a doença não atingiu nenhum familiar ou amigo.
Não sentiram nada pela morte de 15 mil japoneses no tsunami de Tohoku, em 2011, além de alívio por não haver tsunamis no Brasil.
Na terceira camada, situam-se os mundicêntricos. São indivíduos que olham para além do seu limitado território afetivo e se importam com todos os seres humanos, independentemente da origem, nacionalidade, etnia, religião e ideologias. Acreditam, de fato, na noção solidária de que a terra é a nossa pátria.
O mundicêntrico, a rigor, situa-se no primeiro estágio de consciência em que as pessoas estão preparadas, de algum modo, para exercer a cidadania terrena proposta por Morin.
Na quarta camada, estão os cosmocêntricos. Prefiro chamá-los de ecocêntricos, em homenagem a Otto Scharmer, criador da Teoria U. São indivíduos que se importam com tudo o que vive e acontece no universo, não só com os seus 8 bilhões de habitantes, mas com o escasseamento dos recursos naturais, a perda da biodiversidade, a extinção de raças animais, as ameaças à democracia, a crescente insegurança alimentar e o funesto avanço das mudanças climáticas. Para eles, a Terra é nossa casa e jardim comuns. Zelar por sua integridade é cuidar do que nos protege, nos dá vida e nos confere identidade.
Em sua proposta de teoria, Wilber definiu oito estágios de evolução da consciência. E os dois últimos, denominados Integral e Super Integral, representantes do mais alto grau evolucionário, abrigam indivíduos que se caracterizam por não serem materialistas, mais espiritualizados, que enxergam o todo, valorizam a dignidade humana, e são orientados por propósitos, valores, vocações e o desejo de deixar um legado positivo.
Um bom exemplo para entender as quatro classificações é o consumo consciente. Não mais do que 30% da população mundial, segundo o filósofo norte-americano, indivíduos mundicêntricos e ecocêntricos são ativos consumidores conscientes porque possuem elevado senso de comunidade global. Levam em conta, na hora de comprar produtos, os impactos gerados para as pessoas e o meio ambiente. Avaliam a pegada de carbono. Cobram o rastreamento de produtos. Não admitem trabalho social ou escravo na cadeia de valor. Contestam práticas de desrespeito a direitos humanos
O ato de compra é, sobretudo, um ato de cidadania. E pode ser utilizado para punir ou premiar marcas e empresas segundo o seu comportamento mais sustentável.
Ecocêntricos foram Gandhi, James Lovelock, Chico Mendes e Richard Attemborough. Ecocêntricos são Marina Silva, Paul Polman, Greta Thunberg, António Guterres e todos os líderes sustentáveis de governos, empresas e ONGs, que estão tornando suas organizações mais éticas, transparentes, íntegras, respeitosas em relação às pessoas e cuidadosas em relação ao meio ambiente.
Líderes ecocêntricos são mais cuidadores e mais empáticos do que a maioria das pessoas. Praticam uma virtude feminina, que é o cuidar. São atentos, preocupados e zelosos em relação aos colaboradores e às pessoas em geral. Horizontais e dialógicos, mais do que escutadores ativos são escutadores afetivos. Importam-se, de verdade, com os outros. São coerentes, altruístas, solidários e justos. Não acreditam em prosperidade que não seja para todos. Em tempos de crise, são os primeiros a mostrar apoio. Não só com palavras, mas com atitudes. Podem abrir mão de um negócio lucrativo, se acharem que ele coloca em risco pessoas e meio ambiente.
Líderes ecocêntricos são mais inclusivos. Não se importam em ser ou parecer vulneráveis. Agem com transparência. São plurais.
Rejeitam as mentiras, ainda que convenientes. Preferem as verdades, ainda que duras. Abominam qualquer tipo de discriminação. Vivem bem com a diversidade e, mais do que isso, extraem riqueza das diferenças nas formas de ser, ver, sentir e pensar. Humildes, gostam de aprender com o outro.
Líderes ecocêntricos são também mais éticos. Intuitivos, ativistas e extremamente coerentes, gostam de servir a causas, de inovar e de educar pessoas. Praticam o walk the talk. Foram os primeiros a entenderem e praticarem o conceito de sustentabilidade na gestão dos negócios. Não admitem nenhum tipo de decisão que coloque em risco a segurança e a vida das gerações futuras.
Líderes ecocêntricos têm o ego sob controle, trocaram o “eu” pelo “nós.” Querem ser “melhores para o mundo”, por isso priorizam os interesses de todos os stakeholders. Fortalecem os elos de confiança, são colaborativos, lideram pelo exemplo. Olham a realidade sob uma perspectiva sistêmica e de interdependência.
Analisando o que nos propõem Morin e Wilber, mudar a consciência coletiva na direção de uma cidadania terrena exigirá uma transformação de consciências individuais. Felizmente, elas não são estanques. Mas estão atreladas a vivências, conhecimentos, estados mentais, crenças boas ou tóxicas. E o desafio, apesar de grande e complexo, vale a pena.
Reconexões com a natureza e a natureza em cada um de nós
“Todos nós precisamos de alimento para a psique, é impossível encontrar esse alimento nas habitações urbanas, sem uma única mancha de verde ou árvore em flor; necessitamos de um relacionamento com a natureza; precisamos projetar-nos nas coisas que nos cercam; o meu ‘eu’ não está confinado no corpo; estende-se a todas as coisas que fiz e a todas as coisas à minha volta, sem estas coisas não seria eu mesmo, não seria um ser humano. Tudo que me rodeia é parte de mim.
[..] "A vida natural é o solo em que se nutre a alma" (JUNG, 2011, v. 8/2, par. 800)
[...] “Mesmo assim há muita coisa que me preenche: plantas, animais, nuvens, o dia e a noite, e o eterno que há no homem. Quanto mais acentua a incerteza em relação a mim mesmo, mais aumenta meu sentimento de parentesco com todas as coisas.” (JUNG, 1987, p. 310).”
Carl Gustav Jung (excertos)
Não existe cidadania terrena sem uma reconexão do homem com a natureza.
Muito antes dos grandes debates ecológicos, iniciados nos anos 1990, o psiquiatra suiço Carl Gustav Jung (1875-1961), autor conhecido por conceitos como individuação, arquétipos e sincronicidade, já fazia uma crítica à atitude de desligamento do homem do seu meio.
Durante toda a sua vida, o psicanalista amou a natureza nas suas mais diversas manifestações. O contato com árvores, rios, lagos e pequenos animais de criação foi fundamental no processo de constituição de sua personalidade, de suas concepções científicas e de sua maneira de ver a vida.
Sua obra traz inúmeras referências à natureza.
Como somos parte da natureza—acreditava—guardamos os traços arquetípicos de nossa ancestralidade. Abandonar nossas raízes, segundo ele, significa uma espécie de cisão de nós mesmos, o que talvez explique, na essência, e sem querer simplificar, a gênese da crise climática que vivemos hoje.
Suas ideias certamente influenciaram uma linha de pensadores em relação à participação cada vez maior da psicologia nas discussões da crise ambiental. O que une esses profissionais é a crença de que não existe problemas ambientais. Mas problemas humano-ambientais. E um vácuo ético que precisa ser preenchido com uma religação do homem com a sua fonte ancestral de vida.
Na visão de alguns seguidores de Jung, a crise ambiental impacta a psique humana e explica patologias contemporâneas como a ansiedade climática, ou ecoansiedade—um sentimento generalizado de angústia e preocupação com os efeitos das mudanças climáticas, incêndios florestais, chuvas e enchentes de grande volume e ondas extremadas de calor que resultam em desproteção, melancolia e desesperança.
Tudo o que pertence à realidade externa—afirmava Jung-- ocupa em nós um lugar interno. O sol, a água, as plantas, os animais, tudo vive em nós, na forma de arquétipos—imagens, símbolos e valores.
Abro um...Segundo o professor Jean Paul Metzger, professor titular de ecologia da USP, duas visões sobre a relação sociedade-natureza se contrapõem nas últimas décadas.
Uma utilitarista, e por que não dizer mercantilista, segundo a qual a natureza é provedora de bens e serviços. Seus recursos podem ser convertidos em valores monetários. E incorporados ao sistema econômico. Como valem dinheiro, promover a sua conservação é, acima de tudo, um bom negócio.
Você já deve ter ouvido falar que os serviços ecossistêmicos valem algo como 33 trilhões de dólares. E que as abelhas, os mangues e as áreas verdes são muito valiosos porque ajudam no controle de pragas, na criação de peixes e na proteção contra enchentes, como as que destroem cidades. Abordagem meramente econômica.
Há uma outra corrente, formada por biólogos e naturalistas, que é crítica ao pragmatismo dos que acham que a natureza existe para nos servir. Prega uma nova ética, segundo a qual a natureza, e todas as suas espécies, devem ser protegidas pelo seu valor intrínseco e porque representam o resultado de um longo processo evolutivo cujo equilíbrio o humano não tem o direito moral de abalar.
Dessa fonte de visão protetiva nasceu, por exemplo, o conceito das unidades de conservação, tão contestadas por desmatadores, que defendem uma reserva da biodiversidade livre da ação dos humanos.
Nenhuma das duas visões parece ter sido tão suficiente na geração de políticas públicas e ambientais mais eficazes. Uma das razões para tanto pode ser o fato de que ambas reforçam a dicotomia sociedade-natureza (exatamente o contrário do que prega Morin), desconectam o humano da natureza, conferindo-lhe o poder de decidir sobre o seu destino.
Surge uma terceira linha de raciocínio, segundo Metzger: a que defende que todos fazemos parte de um grande sistema socioambiental, como a Gaia de Lovellock, única, viva e inteligente.
E que esse sistema deve ser compreendido como um conjunto de valores relacionais: o caminho é a harmonia do homem com as demais espécies, a coexistência equilibrada, privilegiando o que culturalmente cada sociedade considera como atitudes para uma vida boa e equilíbrio.
Essa visão integradora, de reconexão do homem com a natureza, sem dicotomias, certamente potencializa as soluções para os problemas ambientais.
Compreendermo-nos como parte de um sistema complexo e interdependente, em que ações ruins produzem reações adversas como as pandemias e as mudanças climáticas, nos torna mais responsáveis por um projeto comum de coexistência harmoniosa. Transforma-nos em sujeitos de soluções, em vez de objetos de problemas.
A esta altura, recorro ao antropólogo, sociólogo e filósofo francês Bruno Latour (1947-2022)
Ele acreditava—e eu também—que a crise ecológica (e suas crises convergentes, provocadas pelos humanos) decorre da separação entre a natureza e a cultura.
Essa cisão foi uma construção histórica conduzida pelas sociedades modernas. E teve início, segundo ele, com o renascimento científico, que dessacralizou o mundo e fez emergir as ciências de base cartesiana. Os cientistas passaram então a dominar a natureza.
Para os povos indígenas—lembra Latour—não existem palavras diferentes para designar natureza e cultura. Uma e outra estão interligadas. Isso explica, originariamente, porque a biodiversidade segue mais protegida em territórios ocupados por populações indígenas. E, paradoxalmente, explica também apor que as sociedade tidas como modernas tendem a minimizar as sabedorias tradicionais e tentam impor uma visão de mundo supostamente superiora—na verdade, produto de uma redução simplista da complexidade do mundo.
O que Latour chama de ideologia da separação está em processo de falência. Vivemos uma crise de identidade porque não podemos mais ser representados por uma noção perversa de oposição entre cultura e natureza. Dualismo típico da modernidade, assim como o entre humanos e não-humanos, está em colapso. Para Latour as visões integradas de natureza-cultura indígenas e ameríndias têm muito a nos ensinar se quisermos aprender coabitar com outros seres em vez de inabilitar nossa coexistência 35 livros de sustentabilidade para ler e entender sustentabilidade
Ninguém registrou melhor o fetiche das pessoas por listas e rankings do que o sociólogo italiano Umberto Eco. Não pude deixar de me lembrar, na última semana, do seu livro A Vertigem das Listas (2009), depois de ser provocado por leitores a compor uma contendo os melhores livros de sustentabilidade.
Compreendo, claro, o interesse atual pelo tema. Afinal, com a recente e inusitada valorização da sustentabilidade no universo corporativo (por conta da ascensão do conceito de ESG no mercado financeiro), é inevitável que mais pessoas queiram conhecer melhor o assunto.
Ao mesmo tempo, acho uma tarefa complexa --e temerária--, ranquear livros de sustentabilidade. Primeiro porque a ousadia de selecionar os “10 ou 15 mais” só pode ser cometida por alguém que tenha lido senão todos, a grande maioria dos livros sobre o tema. Segundo, porque essa é uma tarefa subjetiva. Afinal, livros diferentes provocam impactos diferentes em diferentes leitores.
Ressalvas feitas e, afastada qualquer intenção pretensiosa de perpetrar “a lista”, proponho-me a dividir com o leitor os “meus” 35 livros clássicos de sustentabilidade. Considero “