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Sartre, Morin, Esg e Verdades Absolutas

Reflexão filosófica sobre ESG à luz de Sartre e Morin. Não existem verdades absolutas em sustentabilidade. O pensamento complexo ajuda a evitar simplificações e a compreender interdependências sistêmicas.

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Por
Ricardo Voltolini
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15.05.2026
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10 min
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Na faculdade de Jornalismo, li o filósofo francês Jean-Paul Sartre, eterno namorado de Simone de Beauvoir. Mergulhei profundamente no livro "As moscas" e, junto com meus colegas Sérgio Rizo Júnior e Aguinaldo Souza Novo, fiz uma adaptação teatral bem humorada para a obra, denominada "Nós moscados." Apesar do affair intenso, foi namoro de um ano. Menos por sua filosofia existencialista, que me atraía em muitos aspectos. Muito mais por que sua obra era um convite a aprender a pensar. Recentemente, lembrei de uma frase do pensador que sempre impacta o meu lado Ícaro de ser: "Como todos os sonhadores, confundi o desencanto com a verdade."

E por que a lembrança? Estava a rastrear publicações sobre ESG nas redes e, ao final de um breve (e enfadonho) exercício profissional, não pude deixar de concluir duas coisas. Primeira, a maioria dos textos se baseia em verdades absolutas (teses, não hipóteses) elaboradas a partir de construções do tipo "ESG é isso.." ou "Ninguém compreendeu ainda que ESG é..." ou ainda "Há quem ache que ESG é isso, mas ESG é, na verdade..." Claro, todo mundo tem direito a opinião. Isso não se discute. O que chamou a atenção, na minha sondagem exploratória on line, foi a tentativa de impor verdades absolutas (algumas das quais argumentadas com um certo lustro intelectual outras nem tanto) num campo de conhecimento novo, em construção, com premissas ainda relativas. A visão absolutista, como se sabe, exclui as possibilidades dialógicas. Define, estabelece, crava

Segunda, algumas dessas verdades absolutas parecem refletir, a rigor, um certo desencanto dos autores e se orientam por críticas (algumas ingênuas, outras feitas para lacrar ou vender serviços) ao comportamento de empresas, líderes, investidores, mercados e até consumidores. Não que a crítica não seja importante. Ela é fundamental desde que não contaminada pela presunção do julgamento sumário ou pela fantasia de que empresas, líderes, investidores, mercados e consumidores deveriam se tornar, de uma hora para outra, os entes virtuosos que os críticos imaginam que deveriam ser. Empresas, líderes, investidores, mercados e consumidores são o que são. Uma composição de luzes e sombras. ESG seguirá sendo, portanto, um campo de paradoxos, de escolhas e renúncias, de avanços e retrocessos, de oposições e dilemas. As verdades absolutas inibem o debate e tentam, como diz Edgar Morin, outro pensador francês, simplificar o entendimento do que é naturalmente complexo. Consuma verdades absolutas com moderação.

ESG, SÍSIFO E PROMETEU

Já ouviu falar em Sísifo? Está na Ilíada, de Homero. Considerado o mais esperto dos mortais, esse famoso figurão da mitologia grega ousou confrontar Zeus, o manda-chuva do Olimpo. E se deu mal. Acabou duramente castigado, condenado a viver no inferno e a ter que empurrar ininterruptamente uma rocha do topo ao cume de uma montanha. Haveria punição mais pesada? Talvez a de Prometeu, que ficou amarrado a uma montanha por toda a eternidade. ​ Não por outra razão, “trabalho de Sísifo” passou a ser expressão para tarefa dura, repetitiva e desnecessária. Gosto de usar a metáfora grega para aquilo que precisamos repetir ao longo da vida. Lembrei do Sísifo, na semana passada, quando fui perguntado, em três eventos, sobre se o conceito de ESG, antes firme e forte, já estaria começando a naufragar. As perguntas, vale dizer, faziam referência pontual a matérias jornalísticas, reproduzidas nas redes sociais, sobre a desconfiança de europeus quanto aos fundos ESG, e a artigos críticos escritos por especialistas não necessariamente céticos ou contrários à ideia. Convivo com este tipo de dúvida há quase três décadas. Nas últimas duas, dediquei metade do meu tempo de consultor a explicar a conexão entre sustentabilidade e negócio. E a outra metade a combater a suspeita de que sustentabilidade viraria poeira no ano seguinte. É a minha pedra de Sísifo. Lá como cá, ontem como hoje, argumento com duas perguntas provocativas: (1) a quem pode interessar o enfraquecimento da sustentabilidade e do ESG? (2) por que sempre que esses conceitos revisores do capitalismo avançam, surgem vozes do mercado querendo colocá-los sob suspeição? Inércia conveniente? Vício de raciocínio econômico do século 20? Resistência em pagar agora os custos da mudança para o futuro? Dificuldade ideológica em aceitar o peso das questões não-financeiras no valor dos negócios? Negacionismo climático? Viés geracional de baby boomers?​ Seja o que for, compartilho a resposta que dei aos meus interlocutores: ESG não está naufragando. Longe disso. As empresas mais responsáveis, as que normalmente constroem o futuro, já entenderam o alerta dos cientistas do clima e o desejo dos millennials por negócios menos intensivos em carbono e melhores para o mundo. É um movimento sem volta. Ainda no começo. Normal que, em processo de construção, caracterize-se por avanços e retrocessos pontuais. Compreensível que, naturalmente imperfeito, exija ajustes, revisões, críticas, desaprendizagens e reaprendizagens. ​ Com Sísifo à flor da pele, sigo tentando olhar o quadro como um filme. Em evolução natural. Às vezes, mais lenta do que o necessário. Os que o enxergam como fotografia, involuntária ou convenientemente, estão mais como Prometeu, ladrão do fogo do Olimpo, atados ao peso de sua própria rocha de estimação.